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Data 31/07/2020

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Isaura e sua História

Isaura é a eterna diretora da escola Fábio Barreto

 

*História contada pelo portal "História do Dia", projeto apoiado pelo Grupo WTB.

Da janela do apartamento onde mora, Isaura avista a escola Fábio Barreto, centro de Ribeirão Preto. Quando entrava de férias, usava o mirante para checar se tudo corria bem.

Se a luz se apagasse antes da hora, não hesitava. Passava a mão no telefone e chamava: “O que está havendo? Por que estão fechando a escola?”.

Foram 40 anos de magistério, 22 deles na escola que tomou conta da maior parte do coração. Aos 77 anos, já soma 12 anos de aposentadadoria, mas relembra os detalhes do dia a dia como auxiliar de diretora e diretora da instituição.

Não só isso. Fala dos primeiros dias de aula, na zona rural de Pedregulho, 1966, como se fosse outro dia.

Comprou botinas e vermífugos para a sala toda, feita de crianças sem qualquer infraestrutura. Depois, quando o piolho se espalhou pelos cabelos da turma, levou remédios, amarrou fraldas na cabeça de cada um – inclusive na sua.

O educar ia além do abecedário para Isaura.

– Cada aluno era parte do meu eu. Eu tinha um compromisso com aquelas famílias.

Em um tempo de mulheres programadas para o casamento, Isaura Rodrigues Jorge escolheu firmar compromisso com a profissão que tanto ama. Decidiu ser politizada, estudar.

– Eu casei com meus alunos, com a escola. A mulher tem todo o direito de ocupar espaços. Namorei muito, fiz cursos de noiva, mas eu não tinha aquela mentalidade de mulher do lar.

Além do magistério na década de 60, fez Pedagogia, História e Geografia.

Para a entrevista, coloca o quadro que emoldura o título de cidadã ribeirão-pretana que recebeu em 2008 no sofá ao lado. Faz questão de tirar fotos segurando a honraria.

                – Eu acredito que a vida é socializar. Nós temos que socializar.

Isaura diz que sempre quis ser professora.

– Mas, naquela época, o magistério era só para a elite.

A mãe dela era costureira e, depois do divórcio, ficou sozinha para cuidar das duas filhas.

Além do preconceito – gritante, na época – as três tinham que se desdobrar para as contas.

Isaura começou a trabalhar aos 14 anos, em uma grande loja de Franca, onde vivia com a família. Trabalhava durante o dia e estudava a noite, o que inviabilizava o magistério, curso de período diurno.

Quando terminou o colegial, ingressou, então, no curso de contabilidade.

– Mas eu me via rodeada de crianças!

Terminou contabilidade em 1959 e em 1961 conseguiu uma bolsa de estudos para a tão sonhada área. Em 1966, formada, passou a atuar como professora na zona rural de Pedregulho, onde ficou por 12 anos.

Conta que, no primeiro ano, precisou morar nas imediações da escola, porque o transporte até ali era precário. Depois, fazendo amigos, conseguiu uma carona um tanto inusitada. Ia e voltava de trator.

Antes de chegar à escola Fábio Barreto, passou ainda por São Paulo e outras escolas dentro de Ribeirão Preto.

Conta que chegou a ser aprovada em concurso da Secretaria de Fazenda e do IBGE.

– Eu precisava decidir qual área seguir no mesmo dia. Rezava e me via rodeada de crianças.

Continuou atuando na educação.

O apartamento onde a mãe vivia já ficava na Amador Bueno antes de Isaura passar a integrar a equipe da Fábio Barreto, em 1984. Ganhou o mirante como brinde. Morava e trabalhava na mesma rua, do ladinho da escola.

– Eu nunca fui muito de engolir sapo!

As histórias que conta vão confirmando a constatação.

Ela relembra do dia em que brigou com o delegado de ensino, fazendo arregalar os olhos das outras funcionárias.

– Hoje ele está delegado, mas amanhã não está.

E do episódio em que deu suspensão para seis meninos de pais ricos e influentes.

– Naquela época, a Fábio Barreto era uma escola de elite.

O grupo atirou livros contra as lâmpadas da sala de aula, que se estilhaçaram no chão. E terminou com seis dias de suspensão, além de puxão de orelha nos pais.

Um deles não gostou. Chegou a falar com o delegado de ensino, pedindo a revisão da postura. Isaura teve uma só resposta:

– A lei foi feita para todos igualmente.

Relembra das festas que faziam parte da rotina escolar: juninas, primavera, sorvete. Tudo era motivo para celebrar!

Relata que, não raro, a escola carecia de funcionários. Ela e a zeladora ficavam responsáveis por todos os alunos do período noturno.

 – Não podia ter medo. Tinha que enfrentar. Mas nós éramos muito unidos.

Fala, orgulhosa, que seus alunos conseguiam aprovação no vestibular sem precisar de cursinho.

E diz que nunca se negou a conversar com uma família ou um estudante. A sua forma de educar era através do diálogo.

– Eu sempre busquei ser amiga dos alunos.

Deu tão certo que perdeu as contas das vezes em que foi madrinha de casamento de ex-aluno. Chegou a batizar o filho de um casal, na época de aulas na zona rural. Outro dia, foi fazer uma endoscopia e lá estava uma aluna lhe atendendo.

– Cada um deles deixou um pedaço em mim.

Em 2006, aos 65 anos, Isaura decidiu deixar a escola e viver a aposentadoria, que já havia saído anos antes.

A decisão teve seus motivos.

Na década de 90, quando o então governador Mário Covas reorganizou as escolas e retirou o ensino médio da Fábio Barreto, Isaura sentiu.

– Os alunos acamparam na frente da delegacia de ensino. Não queriam sair. Eu gostava das crianças também, mas sabia da luta dos adolescentes.

No final dos anos 90, quando a progressão continuada foi implantada nas escolas de São Paulo, ela diz que perdeu a vontade de continuar.

– O aluno de 4º série, muitas vezes, não está preparado para a 5ª série. É um mundo estranho. Não era do meu feitio passar o aluno sem que ele estivesse preparado.

A saudade da escola foi sendo superada aos pouquinhos, dia a dia.

Ainda hoje, confessa que sente falta do vai e vem de alunos, da rotina escolar.

– A educação mudou muito. Está deixada de lado. Faltam professores em todas as áreas, porque ninguém vai investir quatro anos na faculdade por um trabalho que não remunera bem.

A saudade, então, é de um outro tempo escolar. Um tempo que, hoje, ela guarda nas fotos e na memória cheia de detalhes.

– Me sinto realizada e sinto que valeu a pena. Fiz tudo o que quis.

Da sala do apartamento onde vive rodeada de carinho da irmã, do cunhado, da “neta de coração”, ela ainda avista a escola Fábio Barreto. Vez em quando, sente vontade de passar a mão no telefone e chamar: “Por que a escola fechou antes da hora?”.

*História contada pelo portal "História do Dia", projeto apoiado pelo Grupo WTB.

 

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