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Data 02/07/2020

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Zelador Cido: De janeiro a janeiro

 

*História contada pelo portal "História do Dia", projeto apoiado pelo Grupo WTB.

Encostado na porta de ferro, olhando o movimento da rua Visconde de Inhaúma. Ali, é o cantinho preferido do seu Cido. Mas não dá para ficar parado muito tempo, não.

Logo quando chega, às 7h30, ele sobe os 16 andares de escada em passos acelerados, para manter o ritmo. “Ele vai mesmo! E sempre me chama para ir junto. Mas acha que eu dou conta?”, diz a funcionária, companheira de trabalho, que tem uns 40 anos a menos do que o animado zelador.

A primeira função do dia é verificar se tudo está nos conformes, andar por andar. Começa lá no telhado – que é um dos lugares na lista dos preferidos. Aos 76 anos, garante que não tem qualquer canseira.

– Tá vendo ali? Era a pedreira Santa Luzia. Eles soltavam bombas para tirar as pedras. Daqui a gente ficava olhando.

Aponta para a área onde hoje está o condomínio Jardim das Pedras, no Jardim Paulista.

– Quando eu comecei a trabalhar aqui, isso tudo era mato. Tinha só um miolinho com construções. Hoje tá tudo diferente!

Aparecido Deleigo chegou ao Edifício Chúfalo como servente de pedreiro, em 1968. Conta, orgulhoso, que ajudou a terminar de construir o prédio, na área central de Ribeirão Preto.

– Eu tomava conta da betoneira. Fazia o concreto. Ih, aquilo era duro. E a gente ainda gostava!

Em 1969, foi contratado para atuar como zelador. Mostra a carteira de trabalho, com folhas ralas e amareladas pelo tempo e a foto em preto e branco. Ainda tinha fartos cabelos e nenhuma ruga.

– Teve uma festa no terceiro andar quando eu entrei. Para comemorar a inauguração do prédio.

Desde então, seu cantinho é ali. Andando pelos corredores, socorrendo quem precisa, fazendo de tudo um pouco. Ajuda na mudança, troca lâmpadas, fica de olho na portaria, checa a bomba d`água.

Arruma alguns vazamentos sozinho, chama encanador para outros. Na semana passada, já estava em casa, em horário de descanso, mas não deixou de ligar para um funcionário. Era preciso lembrá-lo de fechar o registro, porque a bomba estava com um defeito.

– Ele tinha esquecido! Ia virar um aguaceiro.

Diz, sem qualquer alegria, que vai entrar de férias daqui umas semanas.

– O pessoal fica doido aí sem mim. Precisa ter as manhas. Se dá algum problema eles me ligam. Ah, eu não gosto muito de férias, não. Um mês parado é duro, né?

Gosta de estar ali, cuidando do prédio do qual já é parte.

Antes de começar a entrevista, tira um pente pequenino do bolso da camisa e penteia as madeixas brancas. Uma história tão bonita merece ser contada com zelo.

Trajetória de muito trabalho

Seu Cido não é de muito papo. É mais quieto, sem muitas delongas. O que não o impede de fazer amizade com cada novo inquilino que aluga um espaço no edifício. E de manter os laços com os antigos. O médico dono da primeira mudança que ajudou a fazer, lá em 1970, ainda atende no prédio, por exemplo.

São nove salas por andar, totalizando 144 espaços. Cido lembra onde fica cada profissional, apesar do vai-e-vem de gente ser intenso.

“Ele sabe onde está cada preguinho aqui”, diz a advogada do 14º andar. Para saber há quanto tempo aluga a sala, ela recorre à memória do zelador: “Quanto tempo faz, heim?”, ao que ele responde sem demora: “Uns 23 anos, Dra.”.

Antes de chegar ao Chúfalo, Cido trabalhou muito na roça. Conta que “naquele tempo” começava-se com “10, 12 anos” a ajudar nos afazeres do campo, onde a família vivia. Estudou até a 5ª série, porque o trabalho era mais urgente.

Se mudou “para a cidade” por volta dos 25 anos, em meados da década de 60. O grande sonho era jogar futebol. Participou de alguns times na fazenda e, depois, em bairros de Ribeirão. Parou de jogar aos 30 anos, mas não deixou de torcer. O Comercial e o Corinthians são suas paixões. Não perde um jogo no estádio.

Antes do Chúfalo, trabalhou na Mogiana e em uma grande empresa de engenharia. E só. Depois que entrou no edifício, nunca mais saiu.

Se casou em 1970, teve dois filhos criados com o trabalho de zelador.

Conta que, quando foi inaugurado, o Chúfalo tinha muitos consultórios médicos, principal procura. Depois é que vieram as salas de empréstimos, que hoje são as mais buscadas pelo público.

Naquele tempo, quem entrava no edifício estava sempre aberto à um “bom dia”, “boa tarde” e quem sabe mais um dedo de prosa. Bem diferente dos tempos atuais:

– O povo era mais simples. Agora, tá mais agitado. É tudo no celular, de cabeça baixa, com pressa. Ninguém conversa.

Os inquilinos também mudaram a postura.

– Sempre tinha festa aqui. Juntava os donos das salas, nos corredores. Agora, acabou tudo.

Não nega sua preferência pelo cenário de outrora.

– As ruas eram de paralelepípedo. Quando chovia, a água entrava na terra. Tinha uma carreira de árvores. Agora, é só asfalto. Por isso que tá esse calor!

Entende, no entanto, que é questão de tempo – que passa.

– A cidade tá crescendo. Vai fazer o que?

O dia que mais marcou esses 50 anos de trabalho não foi de alegria. Em 1983, um homem que perambulava pelas ruas conseguiu passar pela portaria, aproveitando um momento em que seu Cido estava substituindo o ascensorista do elevador, subiu até o telhado e se jogou.

O zelador fecha o semblante quando relembra o episódio.

– Naquele tempo não tinha ladrão, perigo. Então, era mais tranquilo a portaria. Ele subiu sem eu ver. Quando eu cheguei no telhado, não teve jeito. Chateia, né?

Um bom zelador?

Desde 1982, Cido mora com a família em Dumont. “De janeiro a janeiro”, como diz, acorda às 4h30 e às 5h já tem café no bule. Às 6h40 pega o ônibus para dar início ao expediente às 7h30. De segunda à sexta, trabalha até às 17h30. De sábado, para às 14h.

Não entende o sono e o cansaço que tem a juventude de hoje.

– Eles dormem demais! Eu gosto é de ficar trabalhando!

Traz a marmitinha, mas, em alguns dias, gosta de andar pelo Calçadão no horário de almoço. O passeio preferido é no Mercadão Municipal.

– Lá é uma terapia boa! Distrai a cabeça!

Conheceu o João Garapeiro pai, a primeira geração da garapa mais antiga de Ribeirão. E conhece todo o pessoal que faz do Centro um lugar tão cheio de memórias.

Um bom zelador?

– Tem que zelar pelo prédio. Se interessar pelo serviço. É tão bom trabalhar.

Para se manter tanto tempo no cargo é preciso também um tanto de paciência.

– Tem que ter jogo de cintura! Não é tudo que a gente vê… Faz de conta que não viu!

Se aposentou – no papel – em 1995. Não parou – e nem pensa em parar.

– Vai indo. Vamos trabalhando, né? Não tenho canseira.

Conta, todo-todo, que toma só um remedinho para a pressão e não tem qualquer problema de saúde. Quer continuar subindo os 16 andares com a disposição do início.

– É tão bom viver com saúde, né?

Tem uma resposta pronta quando o Correio chega procurando por seu nome:

– Eu sou Aparecido Deleigo, nascido na bonita cidade de Ribeirão Preto!

Antes das fotos, tira o pente do bolso e se penteia novamente. No telhado, posa orgulhoso com a tão querida cidade de fundo. Mas o lugar que mais gosta é ali, encostado na porta de ferro vendo o intenso movimento da Visconde de Inhaúma.

É parte da memória. Fotografia em movimento, patrimônio imaterial, com meio século de história.

*História contada pelo portal "História do Dia", projeto apoiado pelo Grupo WTB.

 

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